NOVAS PERSPECTIVAS EM PROMOÇÃO DE SAÚDE
E QUALIDADE DE VIDA COM EXERCÍCIOS RESISTIDOS

José Maria Santarem*

Do início até meados da segunda metade do século XX as associações médicas recomendavam a prática de exercícios aeróbicos para a população com o objetivo de evitar doenças crônicas como o diabetes, hipertensão arterial, obesidade e as consequências da aterosclerose como o infarto, o acidente vascular encefálico, as gangrenas periféricas e as insuficiências de órgãos. Muitos trabalhos científicos justificavam essa orientação. No entanto, ficava a ideia de que outros tipos de exercícios não eram promotores de saúde, quando na verdade não tinham sido estudados.

Nas três últimas décadas do século XX, no entanto, começaram a aparecer trabalhos mostrando que os exercícios resistidos (realizados contra resistências, geralmente pesos), tinham importantes efeitos para fortalecer os músculos e os ossos, além de melhorar a aptidão física geral, facilitando as atividades da vida diária, principalmente durante o envelhecimento. Assim sendo, a musculação com exercícios resistidos passou a ser recomendada em associação com os exercícios aeróbicos e os exercícios de alongamento, estes com a suposição de que a flexibilidade precisaria de estímulos específicos. Nessa época começaram a aparecer na literatura trabalhos científicos mostrando que as pessoas que tinham mais força muscular morriam menos por todas as causas, mas esses trabalhos não chegaram a mudar os consensos sobre exercícios e saúde.

Nos primeiros anos do século XXI surgiram trabalhos confirmando que os exercícios resistidos isoladamente produzem aptidão física completa, incluindo melhora da flexibilidade, pelo menos para o objetivo de funcionalidade, que é a realização eficiente e confortável dos esforços da vida diária. Também surgiram trabalhos sugerindo que os exercícios resistidos poderiam promover saúde geral, de maneira semelhante aos exercícios aeróbicos, mas ainda não foram suficientes para mudar os consensos profissionais. Atualmente alguns trabalhos importantes parecem ter potencial para mudar conceitos: estudos com amostras populacionais grandes têm confirmado que as pessoas com mais força muscular morrem menos por todas as causas, independente da sua condição aeróbica, e que as pessoas que praticam somente exercícios resistidos apresentam excelente funcionalidade.

Um trabalho recente representativo dessa categoria foi publicado no American Journal of Epidemiology, em outubro de 2017, por Stamatakis e colaboradores: “Does strength promoting exercise confer unique health benefits? A pooled analysis of eleven population cohorts with all-cause, cancer and cardiovascular mortality endpoints”. Nesse trabalho mais de 80.000 pessoas foram acompanhadas por 14 anos para os desfechos de morte por todas as causas. Confirmando outros trabalhos semelhantes, as pessoas que realizaram apenas exercícios resistidos com duas ou mais sessões por semana apresentaram 23% menor probabilidade de morrer por todas as causas, o que também aconteceu com as pessoas que realizaram apenas exercícios aeróbicos por pelo menos 150 minutos acumulados por semana. No entanto, as pessoas que praticaram apenas exercícios resistidos apresentaram 31% menor probabilidade de morrer por câncer, o que não ocorreu com quem praticou apenas exercícios aeróbicos. Esses dados permitem concluir que os exercícios resistidos isoladamente são tão importantes quanto os exercícios aeróbicos para evitar doenças crônicas e provavelmente são superiores no caso de câncer.

Uma tendência na modificação dos consensos de profissionais na orientação da população para a prática de exercícios é que todo exercício mais vigoroso é eficiente para promover saúde e que as pessoas devem praticar o que mais gostam para ter aderência. Exercícios suaves como caminhar são pouco úteis para a saúde geral e o exercício resistido parece ser o mais eficiente, principalmente para quem está envelhecendo e apresenta dores articulares relacionadas com movimentos. Esses exercícios podem ser adaptados para não produzirem dores e por diversos mecanismos podem ser terapêuticos para dores crônicas. No envelhecimento os processos de desgaste e fragilização do organismo podem ser pelo menos amenizados pelos exercícios resistidos, cuja prática em inglês é conhecida como “bodybuilding”.

Para entender porque pessoas sedentárias têm maior incidência de doenças é preciso saber que no sedentarismo ocorre aumento de substâncias que induzem um grau leve de inflamação nas artérias. Essa situação leva à resistência à insulina e à aterosclerose. A consequência é a propensão para todas as doenças crônicas já citadas. A contração dos músculos produz substâncias anti-inflamatórias conhecidas como miocinas, que diminuem a inflamação vascular e assim promovem saúde geral. Os exercícios resistidos parecem ser os mais eficientes para produzir miocinas.

Nossa experiência pessoal confirma os benefícios dos exercícios resistidos documentados na literatura científica. O Instituto Biodelta é uma instituição brasileira que desde 1.991 é dedicada á pesquisa, ensino e aplicações dos exercícios resistidos. Na área da pesquisa desenvolveu uma linha de aparelhos para exercícios resistidos com a proposta de aumentar a eficiência da ativação muscular e aliviar as articulações, facilitando a utilização por pessoas com dores crônicas e por atletas em treinamento pesado. Outra área de pesquisa são as técnicas de adaptação dos exercícios em situação de doenças e fragilidades, facilitando as aplicações terapêuticas. O Instituto Biodelta tem estado presente nos principais congressos de medicina e fisiologia do exercício, com palestras e trabalhos. Na área do ensino oferece cursos presenciais e à distância para formação de profissionais da saúde com foco nas aplicações dos exercícios resistidos. O curso de especialização existe desde 1.996 e é atualmente oferecido em parceria com a Escola de Educação Permanente do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Esse curso já formou mais de 5.000 profissionais entre educadores físicos, fisioterapeutas e médicos. Na área das aplicações o Instituto Biodelta atende pessoas de todas as idades que desejam ou precisam dos exercícios resistidos. Muitas pessoas em atendimento são idosas ou estão em processo de envelhecimento, já apresentando dores crônicas e fragilidades.

José Maria Santarem* Prof. Dr. José Maria Santarem  - Diretor médico do Instituto Biodelta

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