TREINAMENTO RESISTIDO DE ALTA INTENSIDADE DURANTE A QUIMIOTERAPIA: UMA PROPOSTA ADJUVANTE NO TRATAMENTO DO CÂNCER DE MAMA.
“Effects of Heavy-Load Strength Training During (Neo-)Adjuvant Chemotherapy on Cardiorespiratory Fitness, Aerobic Enzymes, Capillaries, Fatigue and Quality of Life in Women With Breast Cancer.”
Efeitos do treinamento resistido de alta intensidade durante a quimioterapia (neo) adjuvante na aptidão cardiorrespiratória, enzimas aeróbias, capilares, fadiga e qualidade de vida em mulheres com câncer de mama.
Vikmoen, O., Strandberg, E., Svindland, K. V., Henriksson, A., Mazzoni, A. S., Johansson, B.,… & Raastad, T. (2024). Effects of heavy‐load strength training during (neo‐) adjuvant chemotherapy on muscle strength, muscle fiber size, myonuclei, and satellite cells in women with breast cancer. The FASEB Journal, 38(13), e23784.
ANÁLISE DETALHADA: TREINAMENTO RESISTIDO EM PACIENTES COM CÂNCER DE MAMA DURANTE A QUIMIOTERAPIA
O tratamento oncológico, especialmente a quimioterapia (neo-)adjuvante, é vital, mas frequentemente acompanha efeitos colaterais deletérios que afetam a aptidão cardiorrespiratória, a função muscular e a qualidade de vida (QV) das pacientes com câncer de mama. Este artigo aborda uma questão clínica crucial: será que a intervenção com Treinamento Resistido (TR) com alta-intesidade, pode mitigar esses efeitos negativos durante o período da quimioterapia?
O estudo se propôs a investigar os efeitos do TR com cargas elevadas e com a devida supervisão de fisiologistas do exercício. Foram realizadas 4 séries entre 6 a 12 repetições, com cargas que oscilaram entre 70 a 90% 1RM, com dois treinos em dias não-consecutivos, com duração média de 19 semanas de acordo com o tipo de tratamento, realizado concomitantemente durante a quimioterapia, em mulheres diagnosticadas com câncer de mama em estágios I-III. Os desfechos primários incluíram aptidão cardiorrespiratória (consumo máximo de oxigênio – VO2pico), enzimas aeróbias e densidade capilar do músculo (biópsia). E desfechos secundários, como fadiga relacionada ao câncer e QV relacionada à saúde, também foram explorados. Para isso, 40 mulheres foram randomizadas em dois grupos: Grupo Treinamento Resistido (TR): n = 23; Grupo Cuidados Habitual/Controle (CON): n = 17. As avaliações ocorreram antes (T0) e após (T1) os ciclos de quimioterapia (CON) e quimioterapia+TR (TR).
Resultados Impactantes: Mitigação dos Declínios Fisiológicos
Os achados são significativos, especialmente ao analisar as variáveis fisiológicas e celulares. Com relação à Aptidão Cardiorrespiratória (VO2pico) e dados hematológicos [Hemoglobina (Hb)], ambos os grupos apresentaram uma redução na capacidade cardiorrespiratória e na concentração de Hb (VO2pico: TR: -5,7 [-0,1 a -11,4]%, P = 0,014; CON: -11,0 [ -1,3 a -16,4]%, P = 0,0005), [Hb]: (TR: -6,3 [-1,3 a -11,2]%, P = 0,011; CON: -7,1 [-2,3 a -11,9]%, P = 0,007). Um detalhe interessante é que embora a capacidade cardiorrespiratória, determinada por meio do VO2pico, tenha diminuído após o tratamento em ambos os grupos, a redução foi menos acentuada no grupo TR (TR: -5,7% vs. CON: -11,0%), sugerindo um efeito protetor do TR de alta intensidade, embora a diferença não seja explicitamente citada como estatisticamente significativa entre os grupos no texto do artigo.
No que diz respeito aos parâmetros bioenergéticos por análise da atividade enzimática como a enzima COX4, uma subunidade 4 da Citocromo C oxidase, e uma enzima essencial do Complexo IV da Cadeia Transportadora de Elétrons na mitocôndria, do Ciclo dos Ácidos Tricarboxílicos (Krebs HA, 1937) , popularmente conhecido como “Ciclo de Krebs”, em homenagem ao Sir. Hans Adolf Krebs («1900 †1981), prêmio Nobel em 1953. Esta avaliação determina um papel crucial na respiração celular e na produção de energia (ATP). Também foi analisada a concentração da enzima Citrato Sintase (CS), uma enzima mitocondrial vital que inicia o “Ciclo de Krebs”, unindo Acetil-CoA e Oxaloacetato para formar Citrato, que é essencial para a produção de energia e síntese de lipídios, e também importante em doenças como o câncer. Os resultados das analises enzimáticas são promissores, a favor do grupo TR. Os níveis combinados de enzimas aeróbias permaneceram estáveis no grupo TR, mas diminuíram significativamente no grupo CON (- 11.4%), ou seja, as pacientes com câncer de mama que fizeram o TR foram capazes de preservar as suas capacidades enzimáticas na produção de energia, mesmo sob tratamento quimioterápico. Na prática este efeito enzimático-protetor do TR, foi traduzido para uma mitigação da fadiga muscular.
A respeito da avaliação da capilaridade muscular realizada no estudo, verificou-se que atenuar a perda da rede de pequenos vasos sanguíneos (capilares) que envolvem as fibras musculares é um processo crucial que melhora a entrega de oxigênio e nutrientes e a remoção de resíduos metabólicos, otimizando a saúde, o desempenho e a recuperação muscular, sobretudo em atividades da vida diária de pacientes com câncer de mama. A densidade de capilares musculares (em fibras tipo 2) não se alterou no grupo RT, mas foi reduzida no grupo CON (-19%, P< 0,04) para capilares por área de fibra. A fadiga física aumentou no grupo CON, mas permaneceu sem nenhuma alteração nas pacientes com câncer de mama que foram submetidas ao protocolo de TR de alta-intesidade.
Além disso, o TR provou ser eficaz na preservação da Qualidade de Vida Relacionada à Saúde das pacientes durante a quimioterapia. Enquanto o grupo controle (tratamento convencional) experimentou um declínio significativo tanto na Função Física quanto na Função Social, o grupo TR conseguiu manter ambas as funções estáveis. Adicionalmente, o TR foi a única intervenção que resultou em uma diminuição significativa da Dispnéia (falta de ar), um sintoma comum do tratamento de pacientes com câncer, enquanto CON permaneceu sem nenhuma melhora no quadro de dispnéia.
Implicações Clínicas e Práticas
Os resultados sugerem fortemente que o TR de alta-intensidade durante a quimioterapia tem um efeito mitigador contra os declínios fisiológicos induzidos pelo tratamento, seguem:
1º) Preservação Muscular e Metabólica: O TR com uma intensidade alta, foi capaz de preservar os níveis de enzimas aeróbias e a densidade capilar nas fibras tipo 2, consideradas fibras de força/potência muscular. A manutenção dessas estruturas é fundamental para a capacidade muscular de utilizar oxigênio e, consequentemente, para a função muscular e aptidão física geral das pacientes com câncer de mama.
2º) Combate à Fadiga Muscular: A estabilidade na fadiga física no grupo TR, em contraste com o aumento no grupo CON, é um achado de grande relevância clínica, pois a fadiga muscular é um dos sintomas mais debilitantes em pacientes oncológicos.
3º) Recomendação de Exercício: Este estudo robusto endossa a importância de incorporar o TR supervisionado (com ênfase em cargas mais elevadas, se tolerado) como parte do plano de tratamento integrado para mulheres com câncer de mama em quimioterapia, indo além do “cuidado habitual”.
Limitações e Perspectivas Futuras (Comentário do Especialista)
Apesar da relevância do estudo, por ser um ensaio clínico randomizado com desfechos ao nível celular e muscular (enzimas, capilares) interessantes, devemos tomar alguns cuidados antes de iniciarmos um protocolo de TR em pacientes com câncer de mama. Em primeiro lugar, uma avaliação completa realizada por um experiente médico oncologista. A segunda preocupação é em relação à segurança e adesão, é crucial saber a taxa de adesão ao TR de alta-intensidade durante a quimioterapia e se haverá eventos adversos significativos, sobretudo em relação à segurança osteomusculoesquelética.
Infelizmente, não há menção sobre os efeitos do TR na força e massa muscular magra, uma limitação que poderia complementar o entendimento da dinapenia (perda de força/potência, como visto em comentário no artigo anterior, n.82) contra sarcopenia (perda de massa).
Por fim, este estudo reforça a crescente evidência de que o exercício é uma “medicina” essencial na oncologia. A capacidade do TR de estabilizar a maquinaria metabólica (enzimas aeróbias), a microcirculação (capilares) e mitigar a fadiga muscular em mulheres com câncer de mama, durante um tratamento agressivo como a quimioterapia, é notável! No entanto, reitero que a supervisão especializada é fundamental, especialmente para TR com alta-intensidade, em uma população clinicamente vulnerável.
Todavia, profissionais da educação física e fisioterapeutas, com especialidade em fisiologia clínica do exercício, sobretudo em pacientes oncológicos, devem ser capacitados para prescrever e monitorar essas intervenções de forma segura e eficaz com o TR, garantindo a individualização da carga e do volume do exercício, respeitando os sintomas e os ciclos de tratamento de cada paciente. A prioridade no TR, neste contexto, é a preservação funcional e a mitigação de efeitos colaterais para manter a qualidade de vida.

Comentário:
Prof. Dr. Milton Rocha de Moraes
Grupo de Estudos em Treinamento de Força na Saúde e Reabilitação
Departamento de Educação Física
Universidade Federal da Paraíba – UFPB
Pós-Doutorado “University of Florida-USA”
Pós-Doutorado Universidade de São Paulo- USP
Especialistas em Fisiologia Clínica Aplicada ao Exercício Físico- UNIFESP
Assessoria/ Cursos/ Palestras (61) 9 9375-7272
Instagram: @miltonrochademoraes
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