Muscle Power Versus Strength as a Predictor
of Mortality in Middle-Aged and Older Men and Women
Claudio Gil S. Araújo, MD, PhD; Setor K. Kunutsor, MD, PhD; Thijs M.H. Eijsvogels, PhD; Jonathan Myers, PhD; Jari A. Laukkanen, MD, PhD; Dusan Hamar, MD, PhD; Josef Niebauer, MD, PhD, MBA; Atanu Bhattacharjee, PhD; Christina G. de Souza e Silva, MD, PhD; João Felipe Franca, MD; and Claudia Lucia B. Castro, MD, MSc
Mayo Clin Proc. n XXX 2025;nn(n):1-13 n https://doi.org/10.1016/j.mayocp.2025.02.015
POTÊNCIA MUSCULAR VERSUS FORÇA COMO UM PREDITOR DE MORTALIDADE EM HOMENS E MULHERES DE MEIA IDADE E MAIS VELHOS.
Comentário: Prof. Dr. Milton Rocha de Moraes
Mentor do Grupo de Estudos em Treinamento de Força na Saúde & Reabilitação
O envelhecimento natural da população traz consigo desafios significativos relacionados à funcionalidade e à saúde muscular. Enquanto a força muscular tem sido um preditor de mortalidade bem estabelecido, um estudo prospectivo recente e robusto, conduzido pelo médico do esporte e pesquisador brasileiro Prof. Dr. Cláudio Gil Araújo e colaboradores, no prestigiado periódico americano Mayo Clinic Proceedings, revela, pela primeira vez, que a potência muscular relativa supera a força muscular relativa como um indicador preditor de mortalidade em homens e mulheres de meia-idade e idosos. Este achado sugere que a capacidade de gerar força rapidamente, e não apenas a força máxima, é um componente ainda mais crucial para a longevidade e a saúde funcional.
ANÁLISE DETALHADA: POTÊNCIA MUSCULAR E LONGEVIDADE
A função muscular diminui progressivamente com o avançar da idade, impactando diretamente a autonomia, a morbidade e, consequentemente, a mortalidade. Embora diversos estudos tenham correlacionado à força de preensão manual (um indicador de força muscular) com o risco de mortalidade, a evidência de análises para a potência muscular, sendo Potência (P) = Trabalho (W) / Tempo (t). O trabalho, por sua vez, é calculado como Força (F) x Distância (d). Portanto, a fórmula completa para calcular a potência muscular é: P = (F x d) / t. Em termos mais simples, é a capacidade de um músculo gerar força rapidamente. Este tipo de análise era escassa em não atletas, especialmente em comparações diretas com a mortalidade de adultos e idosos, a longo prazo. Esta lacuna é surpreendente, dado que a potência muscular é fundamental para a realização de inúmeras atividades diárias, como levantar-se de uma cadeira/sofá, subir escadas (rapidamente) ou reagir a uma queda, situações que exigem não apenas força, mas também a capacidade de executá-la com velocidade.
O estudo teve como objetivo principal avaliar se a potência muscular superaria a força como um indicador de risco e preditor de mortalidade em uma população de meia-idade e idosa. Para isso, os pesquisadores utilizaram dados de 3.889 indivíduos (2.636 homens e 1.253 mulheres) com idades entre 46 e 75 anos, participantes da coorte prospectiva da clínica CLINIMEX, localizada na cidade do Rio de Janeiro, com um acompanhamento entre 6 a 15 anos. A potência muscular do membro superior foi avaliada em Watts utilizando um dispositivo de polia (FitroDyne™) durante um movimento puxador na polia, enquanto a força foi medida em quilograma-força (kgf) por meio do teste de preensão manual (handgrip) com um dinamômetro digital Takei™. Ambas as medidas foram ajustadas pelo peso corporal, gerando os valores de potência muscular relativa e força muscular relativa.
Resultados Impactantes
Durante o período de acompanhamento, as taxas de mortalidade foram de 14,2% para homens e 8,9% para mulheres. As análises de regressão de linear, após ajuste para múltiplos fatores de confusão (idade, relação cintura-estatura e histórico de comorbidades como doença arterial coronariana, hipertensão, dislipidemia, diabetes e obesidade), revelaram resultados interessantes:
1º) A potência muscular como uma forte preditora de mortalidade;
2º) Ambas forças estão inversamente relacionadas à mortalidade, ou seja, quanto maiores forem as forças (potência e/ou máxima), menores são as chances de mortalidade da população estudada.
Estes dados reforçam a importância de manter altos níveis de função muscular ao longo da vida, sobrepondo à capacidade aeróbia, sobretudo no processo de envelhecimento.
Implicações Clínicas e Práticas
Os achados deste estudo trazem implicações profundas para a prática clínica e para a prescrição de exercícios resistidos, como uma avaliação da potência muscular, além da força, deveria ser considerada uma prática rotineira em ambientes clínicos para uma estratificação de risco mais precisa em indivíduos de meia-idade e idosos. Segundo os autores, dar ênfase no Treinamento Resistido de Potência, com a prescrição de exercícios resistidos, deve ir além do treinamento de força tradicional. O treinamento de potência muscular ou baseado na velocidade, que enfatiza a execução de movimentos na maior velocidade possível durante a fase concêntrica, mesmo com cargas moderadas a pesadas, pode oferecer benefícios adicionais significativos para a saúde e longevidade. Este tipo de treinamento já é reconhecido por sua eficácia em desempenho esportivo e tem ganhado destaque em aplicações clínicas.
Por outro lado, os autores reiteram a importância de distinguir entre sarcopenia (perda de massa muscular) e dinapenia (perda de força ou potência muscular). A dinapenia, especialmente a de potência muscular, pode ser um preditor mais crítico de desfechos negativos em pacientes frágeis, como por exemplo, idosos sedentários de longa data.
Limitações e Perspectivas Futuras
Apesar da robustez, o estudo, por ser observacional, não estabelece causalidade direta. As medidas de função muscular foram restritas à parte superior do corpo, e a ausência de dados sobre massa muscular magra ou níveis de atividade física pregressos são limitações. No entanto, o estudo abre portas para futuras pesquisas que explorem se o treinamento de potência, por si mesmo, induz benefícios específicos na mortalidade em comparação com o treinamento resistido convencional.
Este estudo brasileiro é pioneiro neste contexto, e reforça a importância do estudo da potência muscular como um preditor mais robusto de mortalidade do que a força em homens e mulheres de meia-idade e idosos. Podemos concluir que, avaliar e, principalmente, treinar a potência muscular não é apenas relevante para o desempenho esportivo, mas fundamental para a saúde funcional e a longevidade. Profissionais da educação física, fisioterapeutas e da saúde devem incorporar a avaliação e a prescrição do treinamento de potência muscular em suas rotinas para otimizar os desfechos de saúde de seus pacientes e alunos.
Nota do comentarista:
Apesar do promissor estudo realizado pelos brasileiros, ainda é precoce utilizarmos este modelo como “padrão” de treinamento resistido, uma vez que, cuidados em relação a problemas osteomioarticulares devem ser levados em consideração antes da prática de treinamento de potência muscular, sobretudo na população senil.
Nota do coordenador do site Prof. Dr. José Maria Santarem:
Trabalhos anteriores documentaram que a potência muscular aumenta de forma proporcional ao aumento da força, mesmo quando o treinamento resistido é realizado de maneira convencional. Outro aspecto é que pessoas com processos dolorosos nas articulações com frequência apresentam dor quando os movimentos são realizados de forma explosiva, com aceleração da contração concêntrica.
Comentarista:
Prof. Dr. Milton Rocha de Moraes
Pós-doutorado na “University of Florida-USA”
Doutor em Bioquímica e Biologia Molecular pela UNIFESP
Fisiologista do Exercício Especializado em Populações Especiais – UNIFESP
Professor do Departamento de Educação Física – UFPB
Membro do Laboratório de Estudos em Treinamento Físico Aplicado ao Desempenho e à Saúde – LETADS – UFPB.
Associado do “Nacional Strength and Conditioning Association (NSCA)”
Mentor do Grupo de Estudos em Treinamento de Força na Saúde & Reabilitação