Qual a porcentagem de redução da força muscular em idosos que determina o declínio da velocidade da marcha?
What percentage of neuromuscular strength reduction in older adults determines the decline in walking speed?
Machado, Y.O.; Luiz, M.M.; Máximo, R.O.; Lima, S.S.; Steptoe, A..; Oliveira, C.; Alexandre, T.S.
GeroScience – 2026 https://doi.org/10.1007/s11357-026-02193-z
Comentários: Prof. Dr. Milton Rocha de Moraes
O grupo do Prof. Dr. Tiago da Silva Alexandre, docente e pesquisador do Departamento de Gerontologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), liderou este importante estudo longitudinal publicado recentemente no renomado periódico GeroScience. A investigação contou com a colaboração de renomados pesquisadores internacionais, como o Prof. Dr. Andrew Steptoe e o Prof. Dr. Cesar de Oliveira, ambos do University College London (UCL).
O Desafio de Preservar a Mobilidade no Envelhecimento
Um dos grandes desafios da saúde pública moderna é a preservação da mobilidade durante o processo de envelhecimento. Embora o conceito de mobilidade seja amplo, ele é amplamente definido como a capacidade de se locomover livremente no ambiente, sobretudo para realização das atividades da vida diária, como simplesmente poder caminhar livremente sem ajuda, sendo a velocidade da marcha um dos seus principais indicadores clínicos.
Sabe-se que, com o avanço da idade, um nível mínimo de força muscular é indispensável para a manutenção dessa capacidade funcional. Contudo, até então, o patamar exato dessa exigência e a forma como a perda de força muscular impacta, em longo prazo, a trajetória da velocidade da marcha ainda permaneciam pouco claros. Tradicionalmente, a literatura científica tem buscado estabelecer pontos de corte estáticos para a força de preensão palmar, por meio de um dinamômetro, e utilizada como padrão da força neuromuscular global, por meio de análises transversais (estudos de curto prazo, apenas algumas semanas ou meses). No entanto, esses valores absolutos universais falham em capturar as variações intraindividuais e a dinâmica da perda de força muscular ao longo do tempo (estudos por longos anos).
Para preencher essa lacuna, o estudo teve como objetivo determinar qual a porcentagem de mudança na força muscular que está associada ao declínio em longo prazo na velocidade da marcha em idosos.
Os Fundamentos Metodológicos do Estudo
A investigação conduziu uma análise longitudinal robusta utilizando dados do ELSA (English Longitudinal Study of Ageing), um estudo de coorte representativo da população inglesa com idade igual ou superior a 50 anos. A linha de base considerou 4.541 participantes com 60 anos ou mais (média de 70,6 anos). O estudo investigou os parâmetros neuromusculares dos idosos por um longo período, por exatos 12 anos de acompanhamento!
A força muscular foi mensurada por meio da dinamometria de mão (força de preensão palmar). Para avaliar a transição e o impacto funcional, as variações percentuais da força muscular em relação à linha de base foram categorizadas em grupos distintos ao longo de acompanhamentos de 4, 8 e 12 anos:
- Manutenção da força com perdas de até 5%;
- Ganhos de força muscular divididos em faixas de 5 a 10%, 10 a 15%, 15 a 20% e superiores a 20%;
- Perdas (reduções) de força muscular divididas nas mesmas faixas: perda de 5-10%, 10-15%, 15-20% e superior a 20%.
Modelos lineares gerais mistos foram empregados para estimar as trajetórias da velocidade da marcha dos idosos, rigorosamente ajustados para múltiplos fatores sociodemográficos, comportamentais e clínicos (incluindo hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares, índice de massa corporal, dores articulares, entre outros).
O Que os Resultados Revelam?
Os achados demonstram que idosos que experimentaram reduções expressivas na força muscular, por meio de preensão palmar, apresentaram um declínio acelerado na velocidade da marcha em comparação àqueles que mantiveram a força estável (perdas de até 5%, em 12 anos):
- Perda de 15% a 20% na força muscular: Apresentou um decréscimo anual na velocidade da marcha de – 0,007 m/s por ano. Ao longo de 12 anos de acompanhamento, essa redução acumulada representou uma perda drástica de
– 0,189 m/s.
Do ponto de vista clínico, a relevância desses dados é monumental. A literatura estabelece que a diferença mínima clinicamente importante na velocidade da marcha capaz de afetar a autonomia e as atividades da vida diária de um idoso é de 0,10 m/s. Portanto, as perdas acumuladas nos grupos com redução de força muscular igual ou superior a 15% superam amplamente esse limiar de relevância clínica. A recomendação central do estudo para esta população/condição, foi instituir programas estruturados de Treinamento Resistido com Pesos (Musculação) o quanto antes.
Conclusão e Perspectivas Práticas
O estudo conclui que perder 15% ou mais da força muscular, no processo de envelhecimento, atua como um marcador crítico preditivo de lentidão na marcha ao longo do tempo, e consequentemente, maior incidência de comorbidades e mortalidade da população idosa.
Como pesquisador e entusiasta da prescrição do Exercício Resistido voltados à saúde e à funcionalidade, ressalto que a monitorização da variação percentual da força muscular dos idosos, em substituição a pontos de corte absolutos e engessados, representa uma ferramenta formidável para a prática clínica e gerontológica. Essa abordagem personalizada permite a detecção precoce do risco de declínio da mobilidade antes mesmo que o quadro funcional se torne irreversível.
Dessa forma, intervenções oportunas baseadas no Treinamento Resistido com Pesos estruturado e supervisionado mostram-se indispensáveis para modular positivamente a força muscular, combater a dinapenia, preservar a velocidade da marcha e garantir a independência e a qualidade de vida dos idosos em longo prazo.
Prof. Dr. Milton Rocha de Moraes
Doutor em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP
Pós-doutorado pelo Departamento de Cinesiologia da “University of Florida – USA”
Mentor do Grupo de Estudos em Treinamento de Força na Saúde e Reabilitação
Professor do Departamento de Educação Física da Universidade Federal da Paraíba
E-mail: mrmoraes70@gmail.com